O anoitecer aumentou a angústia e o canto dos grilos pareciam lamentos que a sensibilidade da alma de Maria podia entender como gritos de socorro.
Sem muito pensar, levantou-se e saiu porta afora, lampião na mão, como se destino traçado tivera. Parecia esquecer-se que, dentre os dons que Deus lhe dera, não estava a visão física. Mas partiu noite adentro como se a vista da alma lhe pudesse guiar.
No início foram tropeços pelo caminho tão perto, tão desconhecido para si. Mas, a esta altura, nada a poderia deter. Despira-se de seus medos e obstinada continuava sua caminhada cega e lúcida.
Depois de algum tempo, ouviu vozes ao longe. À medida que caminhava, as vozes pareciam tornar-se mais distantes e, então, pensou estar caminhando na direção errada. Parou e instintivamente começou a cantarolar:
“...E quem é ele? E quem é ele? É o padre Cícero Romão, do Juazeiro do Norte, meu padim, sua bênção!"
Como que por milagre de Cícero, sua canção foi respondida por uma voz ao longe:
- Quem vem lá?
Seu coração disparou num misto de felicidade e temor, tal qual um marinheiro absorto pelo tanto navegar ao avistar a terra firme e desconhecida.
- Maria das Dores, filha de Celestino. Quem se achega?
- É Pedro, filho de Antonio peixeiro. A senhora pode continuar sua cantoria que eu me achego pela luz da lamparina.
E Pedro veio ao seu encontro, guiado pela voz cega de Maria, pela luz muda da lamparina e pelo cheiro enfumaçado do querosene.
- Oxe, Dona Maria! Que é que a senhora tá fazendo andando sozinha no meio da noite?
- Olhe menino, eu to aqui andando aperreada atrás de Do Carmo. Tu viste ela por essas bandas?
- Olhe só. Dona Do Carmo foi lá no meu pai depois da hora do almoço pra comprar uns surubim. Inté disse que ia levar uns lá pra senhora. Mas, oxe, tem muito tempo isso, dona.
- Tu viste ela ir embora?
- Mas vi sim senhora. Inté mandei umas pinha bonita que tinha tirado cedo.
Nesse momento, Maria das Dores fechou os olhos sem luz e soltou um grito que pareceu estremecer a terra.
Pedro aproximou-se mais, a segurou pelo braço e perguntou o que se passava. Das Dores permaneceu imóvel, olhos cerrados e inerte como se tivera sido transportada para outro mundo. Foram quase cinco minutos de silêncio absoluto, até que abriu os olhos e disse:
- Menino Pedro, Do Carmo foi apunhalada sete vezes, depois foi arrastada até a margem do rio e conforme o rio subiu, ela foi levada pelas águas.
O rosto de Pedro transfigurou-se.
- Oxe, Dona Maria. Quem ia fazer uma desgraceira dessa com Dona do Carmo?
- Isso meu "padin" não mostrou não. Mas, é certeza que a desgraça aconteceu.
...continua
quinta-feira, 2 de abril de 2009
quinta-feira, 19 de março de 2009
O OLHAR E O OLHAR DE MARIA DAS DORES (capítulo primeiro)
Alheia às desventuras climáticas que tornavam cada vez mais quentes os seus dias e cada vez mais árida a sua terra; como o fazia todas as manhãs, Maria acordou, fez o café, apanhou sobre a mesa a tapioca assada por ela na noite anterior e foi sentar-se à sombra tímida do pé de juá.
No banquinho de madeira, repetia seu ritual matutino, aproveitando a pouca brisa que o ar lhe trazia e pensava. Pensava no couro de carneiro curtido e que em poucas horas, por suas mãos calejadas, viraria sandálias.
Maria das Dores era seu nome. Filha de Celestino e Maria da Ajuda. Irmã de Francisco, Joaquim, Antônio, João, Lázaro, Pedro, José, Celestina, Maria de Nazaré, Maria Francisca e Maria Cândida. Mulher de estatura pequena, braços fortes e olhar de quem já vira de tudo na vida.
As terras eram herança de seu pai; o juazeiro, lembrança de sua mãe e a arte de calçar o povo era dom de Deus, assim como o dom de cantar enquanto tecia o couro duro até que o toque reconhecesse a perfeição de seu trabalho.
Nesse dia, permitiu-se ficar um pouco mais à sombra e adiou o início de seus afazeres diários. Os pés descalços deslizavam sobre a terra seca como se desenhos quisessem fazer. Podia ouvir ao longe o som dos poucos passantes na estrada e naquele momento se deu conta de que ela mesma jamais percorrera qualquer estrada. Dedicara a vida a cuidar dos pais, dos irmãos menores e de quem mais por ali aparecesse.
Refeita de seu momento nostálgico, caminhou até os fundos da casa e se pôs a cortar, costurar, cantar e tocar carinhosamente cada sandália pronta. Assim foi até que o sol estivesse à pino e lhe mostrasse que era hora de parar para o almoço.
Ritualmente, retirou da lata de banha um pedaço da carne do carneiro que ela mesma preparara dias atrás e o aqueceu enquanto a água cozinhava a macaxeira que complementaria sua refeição.
- Das Dores!
- Se achegue, Do Carmo!
Maria do Carmo. Maria das Dores. Marias de uma terra pobre, unidas pelas agruras, carmas e dores da vida. Mas, também, unidas pela amizade que a infância seca fez questão de preservar à idade adulta.
- Chegou na horinha. Se assente que já lhe faço um prato.
- Carece não, Das Dores. Tô indo na casa de Seu Antônio e vim perguntar se tu quer surubim.
- Oxe que faz tempo que não faço um surubim, Das Dores. Só tu mesmo pra me fazer isso.
- Oxe, que bobagem, loguinho tô voltando.
O dia passou lento até que o vento do entardecer trouxe com ele a preocupação de Maria com a amiga. Maria do Carmo era mulher de palavra e o fato de não haver voltado com os prometidos surubins a deixava pensando. Mas, pensando em que? No que pensaria alguém que nascera e crescera numa terra esquecida pela chuva e pelos homens? No que pensaria alguém que uma única vez mergulhou as mãos nas águas do São Francisco?
... continua
No banquinho de madeira, repetia seu ritual matutino, aproveitando a pouca brisa que o ar lhe trazia e pensava. Pensava no couro de carneiro curtido e que em poucas horas, por suas mãos calejadas, viraria sandálias.
Maria das Dores era seu nome. Filha de Celestino e Maria da Ajuda. Irmã de Francisco, Joaquim, Antônio, João, Lázaro, Pedro, José, Celestina, Maria de Nazaré, Maria Francisca e Maria Cândida. Mulher de estatura pequena, braços fortes e olhar de quem já vira de tudo na vida.
As terras eram herança de seu pai; o juazeiro, lembrança de sua mãe e a arte de calçar o povo era dom de Deus, assim como o dom de cantar enquanto tecia o couro duro até que o toque reconhecesse a perfeição de seu trabalho.
Nesse dia, permitiu-se ficar um pouco mais à sombra e adiou o início de seus afazeres diários. Os pés descalços deslizavam sobre a terra seca como se desenhos quisessem fazer. Podia ouvir ao longe o som dos poucos passantes na estrada e naquele momento se deu conta de que ela mesma jamais percorrera qualquer estrada. Dedicara a vida a cuidar dos pais, dos irmãos menores e de quem mais por ali aparecesse.
Refeita de seu momento nostálgico, caminhou até os fundos da casa e se pôs a cortar, costurar, cantar e tocar carinhosamente cada sandália pronta. Assim foi até que o sol estivesse à pino e lhe mostrasse que era hora de parar para o almoço.
Ritualmente, retirou da lata de banha um pedaço da carne do carneiro que ela mesma preparara dias atrás e o aqueceu enquanto a água cozinhava a macaxeira que complementaria sua refeição.
- Das Dores!
- Se achegue, Do Carmo!
Maria do Carmo. Maria das Dores. Marias de uma terra pobre, unidas pelas agruras, carmas e dores da vida. Mas, também, unidas pela amizade que a infância seca fez questão de preservar à idade adulta.
- Chegou na horinha. Se assente que já lhe faço um prato.
- Carece não, Das Dores. Tô indo na casa de Seu Antônio e vim perguntar se tu quer surubim.
- Oxe que faz tempo que não faço um surubim, Das Dores. Só tu mesmo pra me fazer isso.
- Oxe, que bobagem, loguinho tô voltando.
O dia passou lento até que o vento do entardecer trouxe com ele a preocupação de Maria com a amiga. Maria do Carmo era mulher de palavra e o fato de não haver voltado com os prometidos surubins a deixava pensando. Mas, pensando em que? No que pensaria alguém que nascera e crescera numa terra esquecida pela chuva e pelos homens? No que pensaria alguém que uma única vez mergulhou as mãos nas águas do São Francisco?
... continua
sábado, 2 de agosto de 2008
A PENA DE PARKER
E era chegada a hora de manifestar-se.
E era chegada a hora de tomar sua pena
e escrever sobre a vida e a morte no papel
já amarelado sobre a escrivaninha.
Mãos trêmulas segurando a caneta de marca
que, por instantes, lhe fazia lembrar o mal que o abatia.
Lembranças.
Tão breves, tão dissociadas que o faziam confundir-se entre
a pena e a letra, entre a felicidade e a sorte, entre passado e presente,
confusos em seu cérebro outrora bombardeado de idéias.
A chícara de chá à sua frente, outrora era uma dose do seu bom
e velho whisky escocês.
O cinzeiro, companheiro inseparável de suas viagens à terra
das letras, agora lhe servia como porta-comprimidos.
Lembranças do passado restavam-lhe poucas.
O seu presente parecia ser armazenado em um HD defeituoso que
à cada hora, sem qualquer comando, era formatado.
Ao lado da escrivaninha, o espelho insistia em lhe mostrar a
face ainda jovem de um senhor sem memórias.
Fitava o papel e de sua pena começavam a brotar rabiscos
que pareciam poemas. Mas, a cada estrofe, lhe fugia a rima,
lhe fugia a métrica, lhe fugiam as palavras como se tentassem saltar
do papel e precipitar-se de um arranha-céus qualquer.
Sem comoção, levantou-se, virou-se e apanhou em sua estante
um de seus livros favoritos. Não lhe era favorito por lhe haver dado
fama e dinheiro, lhe era o favorito por ter sido o primeiro nascido de sua pena.
Sentou-se e começou a folheá-lo por horas. Não lia os contos, não lia os poemas,
apenas lia seus títulos.
O chá sobre a escrivaninha jazia frio, assim como seu rosto até deparar-se
com o poema intitulado "sensos".
Resolveu lê-lo em voz alta.
Quem sabe, assim, não correria o risco de lhe ver afugentadas as letras.
Voz calma, meio embargada...
"Não tenho bom senso,
não tenho mal senso,
não tenho estratégias,
não tenho inveja.
Prefiro os que mentem aos que não dizem verdades.
Prefiro os que choram aos que não sabem sorrir.
Prefiro os que não dormem aos que não sabem sonhar.
Prefiro o silêncio às frases mal ditas.
Prefiro a agonia à calma fugídia.
Não tenho pesos.
Não tenho medidas.
Não tenho medo.
Não tenho feridas.
Prefiro as palavras sem rima aos poemas medidos.
Prefiro os que gritam aos que não sabem escrever nos olhos.
Prefiro os que calam aos que não sabem gritar.
Prefiro os que mostram aos que não sabem esconder.
Não tenho regras.
Não tenho réguas.
Não tenho tamanhos.
Não tenho sensos,
bons ou maus sensos.
Não tenho censura.
Não tenho lisura.
Sou poeta pela natureza de ser canhoto,
pela avareza das palavras faladas,
pelo senso,
pelo sentido sexto."
Terminando a leitura, sentiu-se um vencedor.
Olhou para sua velha estante e percebeu,
talvez pela primeira vez em sua vida que era, sim, poeta.
Eram dignos todos os troféus em suas prateleiras,
assim como dignas, eram todos as homenagens em sua parede.
Sentou-se, retomou sua pena e escreveu.
Escreveu como nunca antes havia escrito.
Com palavras que nunca ousara deitar no papel.
Ao final, dia amanhecendo, foi até seu quarto, deitou-se e dormiu.
Dormiu na esperança de que seu derradeiro escrito
o fizesse ser lembrado pelo que nem ele podia
mais lembrar-se, o ofício de escrever.
Este breve conto é dedicado ao meu amigo, incentivador,
jornalista, editor, crítico de música e grande escritor
Fernando Rozano (http://fernandorozano.blogspot.com/).
No player, "Alfonsina y el Mar", na voz de Mercedes Sosa.
E era chegada a hora de tomar sua pena
e escrever sobre a vida e a morte no papel
já amarelado sobre a escrivaninha.
Mãos trêmulas segurando a caneta de marca
que, por instantes, lhe fazia lembrar o mal que o abatia.
Lembranças.
Tão breves, tão dissociadas que o faziam confundir-se entre
a pena e a letra, entre a felicidade e a sorte, entre passado e presente,
confusos em seu cérebro outrora bombardeado de idéias.
A chícara de chá à sua frente, outrora era uma dose do seu bom
e velho whisky escocês.
O cinzeiro, companheiro inseparável de suas viagens à terra
das letras, agora lhe servia como porta-comprimidos.
Lembranças do passado restavam-lhe poucas.
O seu presente parecia ser armazenado em um HD defeituoso que
à cada hora, sem qualquer comando, era formatado.
Ao lado da escrivaninha, o espelho insistia em lhe mostrar a
face ainda jovem de um senhor sem memórias.
Fitava o papel e de sua pena começavam a brotar rabiscos
que pareciam poemas. Mas, a cada estrofe, lhe fugia a rima,
lhe fugia a métrica, lhe fugiam as palavras como se tentassem saltar
do papel e precipitar-se de um arranha-céus qualquer.
Sem comoção, levantou-se, virou-se e apanhou em sua estante
um de seus livros favoritos. Não lhe era favorito por lhe haver dado
fama e dinheiro, lhe era o favorito por ter sido o primeiro nascido de sua pena.
Sentou-se e começou a folheá-lo por horas. Não lia os contos, não lia os poemas,
apenas lia seus títulos.
O chá sobre a escrivaninha jazia frio, assim como seu rosto até deparar-se
com o poema intitulado "sensos".
Resolveu lê-lo em voz alta.
Quem sabe, assim, não correria o risco de lhe ver afugentadas as letras.
Voz calma, meio embargada...
"Não tenho bom senso,
não tenho mal senso,
não tenho estratégias,
não tenho inveja.
Prefiro os que mentem aos que não dizem verdades.
Prefiro os que choram aos que não sabem sorrir.
Prefiro os que não dormem aos que não sabem sonhar.
Prefiro o silêncio às frases mal ditas.
Prefiro a agonia à calma fugídia.
Não tenho pesos.
Não tenho medidas.
Não tenho medo.
Não tenho feridas.
Prefiro as palavras sem rima aos poemas medidos.
Prefiro os que gritam aos que não sabem escrever nos olhos.
Prefiro os que calam aos que não sabem gritar.
Prefiro os que mostram aos que não sabem esconder.
Não tenho regras.
Não tenho réguas.
Não tenho tamanhos.
Não tenho sensos,
bons ou maus sensos.
Não tenho censura.
Não tenho lisura.
Sou poeta pela natureza de ser canhoto,
pela avareza das palavras faladas,
pelo senso,
pelo sentido sexto."
Terminando a leitura, sentiu-se um vencedor.
Olhou para sua velha estante e percebeu,
talvez pela primeira vez em sua vida que era, sim, poeta.
Eram dignos todos os troféus em suas prateleiras,
assim como dignas, eram todos as homenagens em sua parede.
Sentou-se, retomou sua pena e escreveu.
Escreveu como nunca antes havia escrito.
Com palavras que nunca ousara deitar no papel.
Ao final, dia amanhecendo, foi até seu quarto, deitou-se e dormiu.
Dormiu na esperança de que seu derradeiro escrito
o fizesse ser lembrado pelo que nem ele podia
mais lembrar-se, o ofício de escrever.
Este breve conto é dedicado ao meu amigo, incentivador,
jornalista, editor, crítico de música e grande escritor
Fernando Rozano (http://fernandorozano.blogspot.com/).
No player, "Alfonsina y el Mar", na voz de Mercedes Sosa.
terça-feira, 1 de julho de 2008
BREVE CONTO DO MAR
Vistosa a moça, em seu vestido branco, a caminhar pelas areias da Praia de Camburi.
Entre um passo lento e outro calmo esbarrava nas poucas conchas que o progresso por ali deixara.
Caminhava sem pressa e pensava em sua vida, que em comum com o azul daquele dia raro do inverno, só tinha a inconstância do azul do céu.
Caminhava olhando o horizonte que mostrava um sol tímido, por vezes escondido entre uma nuvem e outra.
Observava as varas de pescar fincadas na areia e seus pescadores de ocasião que, como ela, olhavam atentos pra lugar algum.
Observava os casais que se abrigavam do vento, abraçados nas pequenas encostas que o mar acabara de entalhar na areia.
Cabelos longos, pretos como os da canção que tocava em seu pequeno aparelho e que ela, desatenta, se deixava ouvir.
"Black is the colour of my trues loves hair..."
Sim, era amante de boa música.
Gostava de Nina Simone, Billie Holiday, gostava de Elis.
Era amante dos livros e comum era entre seus pensamentos naquele dia, passagens que tinha lido, passagens que estava lendo, passagens que, talvez, um dia viesse a ler.
De seus passos lentos, resultou uma grande caminhada.
Quando deu por si, já estava próxima à estátua de Iemanjá.
Parou por instantes a contemplar a moça de vestido azul e braços estendidos, esculpida sem muita maestria e ali fincada há anos, impávida, com seus cabelos que não balançavam ao vento.
Continuou seu trajeto, agora percorrendo o caminho até o ponto de onde havia partido.
Seu aparelho agora tocava "Lady Sings the Blues" e ela, displicentemente, começou a cantarolar.
Sentou-se à beira mar e sentiu a água gelada molhar seus pés.
Neste momento, divagou, perdeu-se entre seus pensamentos e adentrou a água fria.
Seu vestido, colado ao corpo, mostrava a silhueta bela e esguia daquela mulher que caminhava para esquecer que, a pouquíssimos dias, havia perdido um grande amor.
Não. Não o havia perdido para uma mulher mais bela.
O havia perdido pelo simples e comum hábito de perder-se de si mesma e de todos os que a pudessem rodear.
Mergulhou.
Abriu os olhos e pode ver, no turvo da água, pequenos peixes que a acompanhavam.
Tocou os peixes e eles, como que extasiados por sua presença, aglomeraram-se à sua volta. Aglomeraram-se de tal forma que ela não percebeu que já não eram só os de tamanho pequeno que a circundavam. Era um cardume de peixes das mais variadas cores e tamanhos.
Deixou-se levar e se erguia da água com frequência cada vez menor para respirar.
Seu aparelho não tocava mais música alguma, só lhe restara o som dos pensamentos.
O céu já enegrecera e, tal qual a Iemanjá, ergueu-se das águas, voltou a areia e esperou o dia de seu próximo caminhar em direção a si.
* Este breve conto foi escrito ao som de "Canção do Mar", interpretada por Dulce Pontes. Para ouvir é só seguir o link.
Entre um passo lento e outro calmo esbarrava nas poucas conchas que o progresso por ali deixara.
Caminhava sem pressa e pensava em sua vida, que em comum com o azul daquele dia raro do inverno, só tinha a inconstância do azul do céu.
Caminhava olhando o horizonte que mostrava um sol tímido, por vezes escondido entre uma nuvem e outra.
Observava as varas de pescar fincadas na areia e seus pescadores de ocasião que, como ela, olhavam atentos pra lugar algum.
Observava os casais que se abrigavam do vento, abraçados nas pequenas encostas que o mar acabara de entalhar na areia.
Cabelos longos, pretos como os da canção que tocava em seu pequeno aparelho e que ela, desatenta, se deixava ouvir.
"Black is the colour of my trues loves hair..."
Sim, era amante de boa música.
Gostava de Nina Simone, Billie Holiday, gostava de Elis.
Era amante dos livros e comum era entre seus pensamentos naquele dia, passagens que tinha lido, passagens que estava lendo, passagens que, talvez, um dia viesse a ler.
De seus passos lentos, resultou uma grande caminhada.
Quando deu por si, já estava próxima à estátua de Iemanjá.
Parou por instantes a contemplar a moça de vestido azul e braços estendidos, esculpida sem muita maestria e ali fincada há anos, impávida, com seus cabelos que não balançavam ao vento.
Continuou seu trajeto, agora percorrendo o caminho até o ponto de onde havia partido.
Seu aparelho agora tocava "Lady Sings the Blues" e ela, displicentemente, começou a cantarolar.
Sentou-se à beira mar e sentiu a água gelada molhar seus pés.
Neste momento, divagou, perdeu-se entre seus pensamentos e adentrou a água fria.
Seu vestido, colado ao corpo, mostrava a silhueta bela e esguia daquela mulher que caminhava para esquecer que, a pouquíssimos dias, havia perdido um grande amor.
Não. Não o havia perdido para uma mulher mais bela.
O havia perdido pelo simples e comum hábito de perder-se de si mesma e de todos os que a pudessem rodear.
Mergulhou.
Abriu os olhos e pode ver, no turvo da água, pequenos peixes que a acompanhavam.
Tocou os peixes e eles, como que extasiados por sua presença, aglomeraram-se à sua volta. Aglomeraram-se de tal forma que ela não percebeu que já não eram só os de tamanho pequeno que a circundavam. Era um cardume de peixes das mais variadas cores e tamanhos.
Deixou-se levar e se erguia da água com frequência cada vez menor para respirar.
Seu aparelho não tocava mais música alguma, só lhe restara o som dos pensamentos.
O céu já enegrecera e, tal qual a Iemanjá, ergueu-se das águas, voltou a areia e esperou o dia de seu próximo caminhar em direção a si.
* Este breve conto foi escrito ao som de "Canção do Mar", interpretada por Dulce Pontes. Para ouvir é só seguir o link.
segunda-feira, 16 de junho de 2008
Hello, stranger!
Pudesse escrever sobre Nietzsche e sua loucura.
Pudesse escrever sobre Goya e seu "Saturno devorando um filho'.
Pudesse escrever em versos sobre a pessoa de Pessoa, sua pátria e sua língua.
Quem sabe, pudesse citar Clarice e te pedir que me desse sua mão para que eu lhe mostrasse como se faz para adentrar meu mundo.
Quem sabe, ousasse falar de Garcia e quisesse lhe contar o que tenho feito nos meus "Cem anos de solidão".
Mas, hoje, estou mais sarcástico, dramático, cinematográfico, diria.
Prefiro lembrar Jude Law, em "Closer", e dizer que sou o seu estranho.
Prefiro pensar em "A.I." e te pedir que me torne real.
Prefiro correr como Forrest e atravessar fronteiras pra te encontrar.
Quem sabe, da loucura me venha a lucidez.
Quem sabe, da poesia me venha a inspiração.
Quem sabe, de hollywood me venha o sonho.
Quem sabe, numa esquina, num vago segundo, me venha você.
Pudesse escrever sobre Goya e seu "Saturno devorando um filho'.
Pudesse escrever em versos sobre a pessoa de Pessoa, sua pátria e sua língua.
Quem sabe, pudesse citar Clarice e te pedir que me desse sua mão para que eu lhe mostrasse como se faz para adentrar meu mundo.
Quem sabe, ousasse falar de Garcia e quisesse lhe contar o que tenho feito nos meus "Cem anos de solidão".
Mas, hoje, estou mais sarcástico, dramático, cinematográfico, diria.
Prefiro lembrar Jude Law, em "Closer", e dizer que sou o seu estranho.
Prefiro pensar em "A.I." e te pedir que me torne real.
Prefiro correr como Forrest e atravessar fronteiras pra te encontrar.
Quem sabe, da loucura me venha a lucidez.
Quem sabe, da poesia me venha a inspiração.
Quem sabe, de hollywood me venha o sonho.
Quem sabe, numa esquina, num vago segundo, me venha você.
domingo, 8 de junho de 2008
Vôos
Você me disse que tinha asas
e eu te deixei voar.
Você me disse que tinha casa
e eu te deixei mudar.
Você me disse que tinha um navio
e eu te deixei navegar.
Você me disse querer ver o outro mundo
e eu te deixei viajar.
Você me disse que nunca voltaria
e eu te deixei voltar.
Você me disse que não mais partiria
e eu fui tolo em acreditar.
Agora você volta de asas quebradas,
sem lar, sem navio e sem passagem.
E eu?
O que faço agora que aprendi a voar sozinho?
Agora que pintei a casa de vermelho e branco,
agora que colei seus postais marítimos no painel do escritório,
agora que fui à Europa,
agora que deixei de acreditar,
agora que voltei pra mim,
agora que sou ateu.
e eu te deixei voar.
Você me disse que tinha casa
e eu te deixei mudar.
Você me disse que tinha um navio
e eu te deixei navegar.
Você me disse querer ver o outro mundo
e eu te deixei viajar.
Você me disse que nunca voltaria
e eu te deixei voltar.
Você me disse que não mais partiria
e eu fui tolo em acreditar.
Agora você volta de asas quebradas,
sem lar, sem navio e sem passagem.
E eu?
O que faço agora que aprendi a voar sozinho?
Agora que pintei a casa de vermelho e branco,
agora que colei seus postais marítimos no painel do escritório,
agora que fui à Europa,
agora que deixei de acreditar,
agora que voltei pra mim,
agora que sou ateu.
terça-feira, 3 de junho de 2008
Lost
Ando apressado por ruas que não conheço.
Recebo presentes celestes que eu bem sei não mereço.
Subo montes desesperado.
Bato em portas felizes e abraço gente que conhece
os meus olhos inevitáveis.
Telefono apressado para números que minha caneta esqueceu
de anotar.
Eu esqueço de amar.
Abro portas que não me convidam,
fecho contratos com a solidão.
Ando apressado por caminhos antigos,
encontro a pessoa da multidão,
digo sim e digo não.
Esqueço, vou embora, é tarde.
Entardece o dia em que o encontro me fez encontrar o escondido.
Chega a noite e eu saio pela janela,
eu saio de mim, eu saio de tudo e me perco.
Me perco sozinho, cansado do espetáculo de viver.
Me perco à cada minuto.
Ando perdido por caminhos novos,
atraído por novos neóns,
distante das velhas vitrines,
perto do mundo.
Recebo presentes celestes que eu bem sei não mereço.
Subo montes desesperado.
Bato em portas felizes e abraço gente que conhece
os meus olhos inevitáveis.
Telefono apressado para números que minha caneta esqueceu
de anotar.
Eu esqueço de amar.
Abro portas que não me convidam,
fecho contratos com a solidão.
Ando apressado por caminhos antigos,
encontro a pessoa da multidão,
digo sim e digo não.
Esqueço, vou embora, é tarde.
Entardece o dia em que o encontro me fez encontrar o escondido.
Chega a noite e eu saio pela janela,
eu saio de mim, eu saio de tudo e me perco.
Me perco sozinho, cansado do espetáculo de viver.
Me perco à cada minuto.
Ando perdido por caminhos novos,
atraído por novos neóns,
distante das velhas vitrines,
perto do mundo.
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