quinta-feira, 14 de abril de 2011

BEATRIZ (parte 2)

- Eu vou voltar a lhe dizer, moço.  Eu não faço mais essas coisas, nem com tu me pagando.  E preste atenção numa coisa, eu já me deitei com quase tudo quanto é homem destas redondezas e com muita mulher também.  Se eu quisesse cobrar por alguma coisa, eu cobrava era por isso.
- Olhe moça, eu não vim aqui pra ofender não.  Eu tô é lhe pedindo por favor.
Baixou a cabeça e, como se a entregasse ao carrasco da guilhotina, teve um ataque de choro que quase o fez perder a respiração.
Beatriz, a quem a emoção poucas vezes tivera a oportunidade de alcançar, estendeu a mão e segurou o rosto do homem.
Venâncio era de uma cidade que distava a uns cem quilômetros dali.  Era moço bonito, de seus trinta e poucos anos, rosto quadrado, cabelos pretos e corpo talhado pelo trabalho árduo.  Trajava naquele dia uma calça jeans apertada que lhe moldava as coxas grossas e esculpia o tamanho de seu membro, mesmo que essa, nem de longe, fosse a sua intenção.
 Beatriz tomou a mão direita do estranho que começava a intrigá-la e se pôs a fitá-la como se dali pudesse extrair passado, presente e futuro, numa mistura que sua mente torpe começou a não mais compreender.  Nascimento, vida e morte começaram a se embaralhar diante de seus olhos, numa dança que sua simplicidade sequer podia acompanhar.  Apertava-lhe a mão e percebeu que esta começou a sangrar, tal como se afligida por um estigma.
Foram mais de trinta minutos que só cessaram porque o céu se abriu numa tempestade incomum por aquelas bandas.  Em pouco tempo, o sol escaldante deu lugar a um cinza poucas vezes por ali visto.  As poucas árvores pareciam bailar ao toque do vento forte e as gotas pareciam pedras de água tal qual o estalido que faziam ao tocar o solo.
Encharcados, Beatriz e Venâncio saíram, mãos dadas, sangue ainda a escorrer e meteram-se na primeira construção abandonada que puderam avistar.
- Me desculpe, moça.  Eu acabei fazendo você ficar encharcada.
Beatriz aproximou-se e, sem palavra alguma, arrancou num só puxar a camisa ensopada de Venâncio.  Aproximou-se mais e ele lhe rasgou o vestido com a mesma ânsia.  As mãos de Beatriz, acostumadas ao trabalho rápido com braguilhas, logo seguravam o membro duro de seu mais novo amante.
Pela primeira vez, o pau que lhe adentrava a boceta úmida causava-lhe arrepios e prazeres com que nunca pudera sonhar.
Fuderam como poucos durante toda a tempestade e, ao anoitecer, ainda mantinham seus corpos grudados, suados, como se assim sempre o fora.

(continua)

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

BEATRIZ

Despretensiosa Beatriz, que por tantas vezes sonhou acordada pra não dormir.
Afoita Beatriz, que por tantas vezes meteu os pés pelas mãos e estas nas braguilhas de gajos desavisados.
Insana Beatriz, que por tantas vezes usou a língua para dizer o que não devia e para tantas outras deliciosas coisas a que esse chicote do corpo pode lhe servir.
Beatriz era dessas mulheres da vida que transpiram vida em lençois de cores cafonas.
Beatriz era à toa como o eram os seus pensamentos que vagavam por lugares onde ela nunca pudera estar.
Beatriz foi mãe aos quatorze anos e abriu as pernas para ter seu filho com a naturalidade com que parem as éguas num pasto ao entardecer.
Beatriz nasceu de boa família, foi bem educada e frequentava as missas com sua mãe, embora nunca tivesse sido religiosa.  De religião só entendia nas tardes de Domingo quando metia-se na cama de Padre Luiz e dele extraía mel como se abelha operária fosse.
-  Tu és vagabunda?
- Sim, padre.  Eu sou uma vadia.
- E o que tu acha que merecem as vadias?
- Pau, padre.  As vagabundas merecem pau.
E, assim, passavam-se as tardes dominicais de Beatriz, entre suor e gozo que ela bebia como se um bezerro faminto fosse.
Seu filho crescia e crescia, também, o seu desejo pela lascividade e pelos prazeres que  seu corpo pudesse lhe dar.
Logo, fodia com o padre, com o dono da mercearia, com o médico da cidade e com a mulher deste, quando tempo lhe restava.
Ao completar vinte e dois anos, em sua boceta já haviam entrado todos os paus das redondezas.  Sua boca já havia sorvido o gozo de tantos homens e mulheres que ela nem sequer ousava mais contar.
Dia daqueles, quente como o inferno, Beatriz com seu vestido estampado estava a vagabundear pela praça quando ouviu alguém a lhe chamar.
- Você é a Beatriz, filha de dona Cidinha?
- Sou eu, sim.
- É tu que sabe ler as mãos?
- Olhe, moço.  Eu até lia as mãos, mas, cansei dessas coisas.  Isso não me deu futuro não.
- Ora, pois me disseram que tu viu nas mãos do doutor que ele tinha doença ruim.
- Já lhe disse, moço, eu não quero mais essas coisas pra mim, não.
- E pagando, tú lê?

(continua)

domingo, 1 de agosto de 2010

A LETRA NO CORPO (respostagem do texto integral, à pedido)

Madrugadas podem ser frias, assim como pessoas podem ser cruéis.

Sobre madrugadas e frio eu sempre entendi muito. Afinal, nasci sob o mais rigoroso dos invernos russos e, criado por minha mãe, já que meu pai nos deixou quando eu tinha apenas sete anos, me habituei a passar noites acordado esperando, junto aos estranhos na estação ou olhando o fogo na pequena lareira, que ela voltasse do trabalho.
Meu nome é Alexei e tenho dezessete anos de idade. Na próxima semana é meu aniversário e serei mais um no exército chercheno.
Talvez lhes pareça comum a minha história, mas, é a minha história. Eu não a desejei, alguém a escreveu como eu lhes escrevo agora.
Naquela madrugada fria, fui até a estação esperar por minha mãe. Me sentei, como de costume, no banco mais próximo da parada 19. Acendi um cigarro e observava os vagabundos, os bêbados, aqueles que chegavam e os que partiam. Me perdi em pensamentos até que fui despertado por um sussuro ao ouvido.
- Você tem um cigarro?
Me afastei bruscamente e ao olhar para ele senti uma mistura de paraíso e horror percorrer minhas veias.
- Perdoe se o assustei.
Sua voz parecia ter algo celeste, mas, também, me trazia uma inexplicável angústia.
Igor Tenenko. Este era seu nome.
Um homem alto, com traços que eu poderia reconhecer em mim mesmo no espelho dos vinte anos futuros.
Igor era um oficial do exército e não foi difícil conversarmos por quase uma hora sentados no banco da parada 19.
Logo, nos víamos todos os dias. Logo, eu sabia tudo sobre aquele homem de olhar doce e sombrio, casaco marrom e que me fazia falar de minha vida como nunca falara ao meu melhor amigo ou à minha própria mãe. Neste ponto, o considerava meu irmão, meu pai, meu filho. É claro que essa relação começava a incomodar minha mãe, que não podia entender porque eu deixara a companhia dos amigos pela cumplicidade com o coronel Tenenko. Afinal, dizia ela, mesmo sem o ter visto, ele tem idade para ser seu pai.
Quando o exército russo invadiu a Chechênia, eu já era um soldado.

A guerra se arrastou por cinco longos anos e, nesse período, eu enterrei amigos, matei os que me disseram ser meus inimigos, vi fé se misturando com sangue em todos os dias de confrontos e sofri ao ter que partir de Grozny deixando Igor numa prisão.
Ao retornar à Rostov, encontrei minha mãe doente, morando em um apartamento fétido e pequeno. A cidade havia crescido, as oportunidades de trabalho deixaram de existir e as pessoas pareciam seres de um outro lugar.
Nesta época eu trabalhava numa fábrica de ração. Foram dias insuportáveis em meio ao mau cheiro de restos de frangos, bois e tudo o mais que se pudesse adicionar àquela mistura horrenda e que, ao final, era embalada em vistosas sacolas plásticas com estampas de cães felizes.
A saúde de minha mãe piorava a cada dia, mas, nesse ponto, eu já havia conseguido um lugar melhor para morarmos. Um apartamento pequeno e pintado com uma cor acinzentada que me fazia pensar estar do lado de fora, comigo por dentro.
Foram dois anos de espera, até que numa tarde chuvosa, ao sair da maldita fábrica, pude ver, de novo, os olhos do único ser capaz de me transmitir paz, me acalmar os medos e me renovar esperanças naquela terra gélida e triste.
Os olhos de Igor. Talvez fossem estes os poucos sinais reconhecíveis naquela figura maltratada pela prisão, pela guerra e por ver suas convicções políticas explodirem como que saídas de um tanque de guerra.
Ficamos abraçados por minutos que pareceram uma eternidade. Aquele misto de pai, filho, amor, calor e dor, reacenderam em meu peito como uma brasa encoberta pela neve.
Agora, eu tinha quase vinte e cinco anos. A morte de minha mãe aconteceu um mês depois da chegada de Igor. Ainda me arde na memória a imagem bela de seu rosto naquela caixa escura.
Escuridão. Essa é minha concepção da morte. Um grande e imenso vazio escuro onde permanecemos por um tempo indefinido, até que uma grande luz venha e nos arrebate para o lugar que não nos é permitido conhecer, senão neste sagrado momento.

Fitava impassível o rosto daquela mulher e recordava cada momento passado junto a ela. Minha mente se transformara, por instantes, em uma louca máquina do tempo onde flores e jardins se misturavam a cheiros de cevada e bolos de carne. Lembranças de domingos alegres.
- Vamos?
- Sim, me distraí por instantes.
- Vamos passar por isso juntos.
- Obrigado por estar ao meu lado.
A resposta foram seus braços me envolvendo e, só nesse instante, me dei conta de que ainda não chorara. O fiz com a mais sofrida dor, enquanto as mãos de Igor me acariciavam os cabelos.
- Tenho medo!
- Não tenha! Estou contigo.
Caminhamos abraçados como que migrando para um lugar diferente, ao pôr do sol de setembro.
Agora podia entender o porquê de minha tia manter em sua casa, após anos, todos os pertences de seu amado e falecido marido.
A cada gaveta remexida, uma lembrança. A cada lembrança um sorriso ou uma lágrima. Assim, juntei todas as coisas de minha mãe e as levei ao asilo de Rostov.
Igor conseguira um trabalho no campo, trabalhava na colheita de trigo. Nossos turnos diferentes não nos deixava restar muito tempo para estar juntos. Mas, quando estávamos, o tempo parecia parar, o mundo parecia não ter fim.
Nos meses que se seguiram, nossas vidas pareciam ter, enfim, um caminho a ser trilhado. Nossas esperanças se renovavam a cada dia. Igor ainda trabalhava no campo e, graças às nossas economias, morávamos num bom apartamento onde eu podia cultivar violetas na varanda.

Igor já conseguia lidar melhor com suas lembranças da guerra, graças a sua grande capacidade de recomeçar e ao tratamento psicológico oferecido pelo governo.
Quanto a mim, acreditava que cada dia era um novo nascimento, uma nova porta que se abria para o distanciamento dos horrores vividos no Cáucaso, embora minhas noites ainda fossem povoadas pelo som de gritos, bombas e choro das crianças. O choro das crianças...Esse era o som que mais me atormentava.
- Alexei! Alexei!
Todas as noites tinha a mesma sensação ao despertar dos malditos pesadelos. O rosto triste de Igor e seu abraço na madrugada passaram a fazer parte da insônia que insistia em adentrar o meu mundo, tal qual o ladrão invade casas alheias e as furta sem consentimento.
- Você não pode mais adiar uma consulta ao médico, Alexei. Seus pesadelos têm sido muito constantes, você precisa se livrar dessas dores. Lembre-se que não estamos mais na guerra.
- Me perdoe tê-lo acordado mais uma vez, mas, tenho certeza de que conseguirei me livrar disso sozinho.
- Descanse, conversaremos sobre isso amanhã.
Passei o resto da noite acordado e me amargurava não ter a coragem suficiente para olhar Igor nos olhos e lhe dizer toda a verdade. Logo eu que sempre fora verdadeiro em todas as coisas, agora me deixava morrer por dentro pela dor que causei a quem sequer conhecia.
- Bom dia!
- Café na cama? Não mereço isto depois de ter lhe feito perder sua noite cuidando de mim.
- Cuidaria de você, mesmo perdesse todas as noites de minha vida.
A primavera despontava bela no céu de Rostov. Os canteiros pareciam ter adquirido nova vida e os girassóis agora tinham o mais belo dos tons amarelos.
Igor se esforçava para me arrancar do mundo cinza onde eu mesmo insistia adentrar.
Os passeios pelo parque, as caminhadas pelas vielas vazias, o abraço ao entardecer. Tudo me remetia a um grande vazio, velado pelos sorrisos que, cuidadosamente, não me permitia esquecer. Afinal, pensava eu, Igor passou por momentos piores que os meus. Era como se não me fosse permitido mostrar minha dor. Como se a dor tivesse se tornado um grande segredo do qual só eu mesmo podia compartilhar.
Certa noite, após o jantar, num esforço tamanho, recolhi pratos e talheres e caminhei em direção a cozinha. Podia perceber que Igor me observava, mas não tinha coragem de lhe encarar.
- Alexei!
Me virei rapidamente e lá estava ele, braço apoiado no umbral da porta, me fitando com os mesmos olhos que anos atrás haviam me trazido tanta paz.
- Não pode mais me olhar nos olhos?
- Claro que sim. Por que me pergunta isso?
- Porque há meses você não o faz. Porque há meses percebo seu sorriso obrigatório. Porque há meses não sei quem é você.
- O que você está dizendo não faz sentido.
- Então, me olhe nos olhos.
- Não faça isso.
- Por favor!
Instantaneamente, uma lágrima me desceu o rosto e senti a mão de Igor segurando a minha, como se quisesse arrancar minha dor em um só toque, como se quisesse me abrir o peito e colocar vida onde havia angústia. Olhei para seus olhos e vi que ele também tinha o rosto molhado. O abracei com força e senti suas mãos tocando a cicatriz em minhas costas como fosse um artista a pincelar uma tela.
- Y, Y, Y – ele sussurrava ao meu ouvido enquanto continuava a tocar minhas costas.
Eu não conseguia falar. O choro havia tomado conta de mim como se estivesse mergulhado em um grande pesadelo. As lembranças afloravam tal qual os girassóis do parque. No início amareladas, depois com cores fortes que me faziam gritar em meio aos soluços de meu pranto desenfreado.
- Meu filho não, por favor, meu filho não!
O choro da criança, os gritos da mãe, o abraço de Igor, as imagens se desenhando em minha mente.
- Atire em mim! Meu filho não.
O tiro, o desmaio, a navalha percorrendo minha pele, o Y de Yanko, a criança órfã, minha mãe, Igor, meu pai, a letra no corpo.
Madrugadas podem ser frias, assim como pessoas podem ser cruéis.
Agora entendia mais sobre amor, dor, alegria, entre o bem e o mau.
Agora entendia o grande mistério de mim e não poderia conviver com ele, por isso, parti.

(Para Carlinha que, como eu, tem sua letra no corpo)

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

DEZ ENCONTROS

Encontrei você dia desses e, em minhas loucas contas, parecia ser o nono.
Te mostrei a vista da minha sala, mas, ainda não pude te ver me vendo.
Te levei à uma viagem longa, mas, não pude viajar seu sonho.
Encontrei você no dia que não risquei do calendário e agora me perdi no tempo.
Te levei pra cama e, num transe, dormi com o filho que nunca pude ter.
Te levei pra festa, mas, seu suor me embaçou o ver.
Encontrei você no acaso do desencontro, no ocaso da minha dor.
Porque será que não conto o décimo?
Porque só os milésimos me fascinam?
Se te encontrei em milênios, porque você não vê a minha vista?
Se te encontrei em dia claro, porque não decolo minha aeronave?
Se vou te perder no longe, porque insisto em olhar o breve?
Por quantas vezes terei que estar dentro de ti para te enxergar?
Por quantas vezes terei que te iludir pra me incendiar?
Por quanto tempo sua boca sôfrega ainda irá me inebriar?
Sempre tive encontros rápidos em dias longos.
Sempre medi intensidades como se medem paredes.
Hoje, descobri que, contigo, a regressiva conta não conta mais,
a progressiva já não me apraz.
Tive nove e viraste o décimo milhar de dez encontros.

sábado, 29 de agosto de 2009

PÓLOS

Imantava letras na madrugada
quando encontrei sua agenda.
Meio empoeirada, guardava páginas
do mais puro dos brancos nórdicos.
Passei folhas até chegar à penúltima delas
e, como se especialista fora, decifrei seu
manuscrito que dizia que iríamos junto ao Japão em Novembro.
Logo você que nunca planou comigo, deu pra me
incluir em seus planos.
Logo você que nunca nadou comigo, deu pra
desafiar as leis da minha física.
Logo você que nunca fez ninhos, deu pra
querer me dar mundos.
Passo à próxima folha e me vem o branco
da cegueira de Saramago.
Percebo seu norte, seu sul e seu noroeste.
Logo agora que cismei de colocar a pilha ao contrário,
logo agora que não magnetizo,
logo agora que não imanto.
Logo agora que mudei a direção.
O Japão é do outro lado.
E você, em que pólo está?

domingo, 5 de julho de 2009

Não peque mais

Me perdoe!
Me perdoe por ser enfático.
Me perdoe por não ser dogmático.
Me perdoe por ser tão prático.
Me perdoe por não acreditar nas histórias que você leu
em seu livro preto e que, para mim, sempre pareceram assustadoras.
Me perdoe!
Me perdoe pelas mentiras que contei pra não te ver chorar.
Me perdoe pelas tantas vezes que, com raiva de seu choro,
não consegui te abraçar.
Me perdoe !
Me perdoe por não acreditar no inferno.
Me perdoe por arder de desejo em pleno inverno.
Me perdoe se nunca existirem crianças em sua sala te chamando de avó.
Me perdoe por me sentir tão só.
Me perdoe!
Me perdoe, mãe, porque pequei.
Pequei contra ti quando me geraste,
e a natureza que você chama de Deus
me fez ser o que você denomina “isto”.
Me perdoe!
Me perdoe por ser o melhor da escola,
Me perdoe se eu ainda gosto de jogar bola
Me perdoe por cada instante em que eu te perdôo,
Te olho e te digo baixinho: Vá é não peque mais!

terça-feira, 26 de maio de 2009

APOCALIPE-SE

Recebo os sinais da virgem.
As suas dores, as suas contrações e os seus medos.
Vejo se levantar o anjo que anuncia, espada em punho, a morte do não nascido.
Sinto o calor da espada que parece saída do fogo do inferno.
No fundo de seus olhos posso ver a dor que o faz ser mensageiro de Deus.
Sinto o seu corpo sobre o meu corpo e vejo que ele sangra.
Incestuoso e profano é o seu beijo,
a sua lingua entre meus lábios
e a sua mão que se entrelaça à minha.
Tenho dores ao sentir dentro de mim
o que agora chama de louco.
Vejo se erguer a sua espada flamejante e
a sinto penetrar em meu ventre,
arrancando de mim o que não deveria nascer.
Neste instante, ele grita e monta em seu cavalo
que se funde ao seu corpo.
Sobrevoa minha cama, cura minha ferida
e parte levando consigo o que agora
chama de filho de Deus.

terça-feira, 7 de abril de 2009

O OLHAR E O OLHAR DE MARIA DAS DORES (capítulo final)

Passaram-se os meses, assim como passaram pela casa de Maria, o delegado, o investigador, as equipes de reportagem, os videntes e todos aqueles que instigados pela visão contada pelo filho do peixeiro, iam pedir preces ou pelo menos conhecer a mulher que podia ouvir o Padre Cícero.

Em alguns dias, sob o sol causticante, podia-se contar filas com mais de duzentas, trezentas pessoas, esperando, terços em punho, pela oportunidade de se aproximar de Maria e pelo menos tocar-lhe as mãos.

Maria não mais podia curtir o couro dos carneiros que, como ela, envelheciam por seu terreiro sem vida. Nunca mais pudera sentar-se à sombra do pé de juá sem que uma multidão a estivesse acompanhando. O juazeiro só compartilhava com ela a luz da lua, o único momento em que podia se sentir aliviada de tantas rezas, perguntas e lamentos.

Nunca fora de muito rezar. Apesar de ter fé em seu “padin”, na beata Maria e em Nosso Senhor Jesus Cristo, Maria sempre fez suas preces cantando, sem muitos terços, ave-marias ou padre-nossos. Ao contrário de dona Maria da Ajuda, sua mãe, que acordava de madrugada para rezar terços e passava dias em jejum por gratidão ou pedido aos santos.

Maria cresceu ouvindo sua mãe dizer que no dia de seu nascimento, vinte de julho, viu à beira da cama a imagem do Padre Cícero a lhe estender os braços e a lhe dizer que naquele dia havia nascido uma criança com o olho de Deus. Essa história foi contada aos quatro cantos do Juazeiro, mas, com o passar dos anos, a promessa de se ter ali uma santa perdeu-se no vento. Nunca fizera milagre algum a não ser o de transformar couro de bicho em artefato para calçar o povo.

Assim como a lenda de sua santidade, a visão que tivera da morte de Maria do Carmo, aos poucos, deixou de ter importância para o povo da região e ibope para os meios de comunicação.
A vida voltava ao normal a cada amanhecer. Maria já podia cantar depois de quase dois anos do acontecimento. Pedro já era um rapaz feito e, dia ou outro, aparecia levando uma fruta ou um punhado de surubins. A agonia do momento vivido junto a Maria os tornara próximos, como se amigos fossem há tempos.

- Dona Maria!
- Se achegue, Pedro. Tô aqui a costurar.
- Dona Maria, eu tô que tô aperreado desde ontem de noitinha.
- Vixi, menino. O que se assucedeu?
- Olhe que ontem eu tava lá arrumando as coisas de casa e achei esse cordãozinho. Pega só pra senhora ver.

Com o olhar que só o tato poderia lhe dar, Maria viu que era um objeto que conhecia muito bem e de longa data.

- Menino! Mas esse cordão é de Do Carmo. Oxe se não é o cordão com a chavezinha que ela não tirava do pescoço. Onde tu achou isso?
- Tô lhe dizendo. Tava arrumando as coisa lá no quartinho dos fundo quando vi que tinha um troço reluzindo no chão.

Pedro pôde ver o semblante de Maria transformar-se enquanto carinhosamente apalpava o objeto em suas mãos e, nesse pequeno instante, passaram-lhe pela cabeça os mais estranhos pensamentos. O que estaria aquela senhora de aparência franzina à sua frente a imaginar?

Não era letrado. Era filho de pescador e, como tal, aprendiz de pescador era. É certo que não gozava do dom como o seu pai, mas, para quem crescera acostumado ao cheiro do agora escasso pescado e sem grandes oportunidades numa terra pobre, ser pescador era o ofício que se apresentava para seguir.

- Se avexe não, menino. Eu estou cá com meus pensamentos mas não to a pensar nada de mal de ti ou de seu Antônio.
- Olhe, Dona Maria. Antes de trazer o cordãozinho eu perguntei pro pai se ele sabia de quem era. Como ele disse que nunca tinha visto eu trouxe pra senhora.
- Mas então eu não sei? Do Carmo andava com essa chavinha no pescoço mas nunca ninguém podia ver não. Estava sempre por debaixo da roupa. Só sei que fazia muitos tempos que tinha esse pertence.

O cordãozinho em questão era uma peça de prata antiga, com uns sessenta centímetros, trançada de forma tão perfeita que só poderia ter sido arte de um grande mestre. A tal chavezinha era sim uma chave pequena, feita em ouro e, embora desse nobre metal fosse feita, parecia desgastada pelo tempo ou pelo seu contínuo uso.

Maria deitou a chave sobre a velha mesa de madeira ao lado de sua cama e ali ela permaneceu por dias, meses, anos.

Todos nas redondezas já haviam esquecido o desaparecimento de Maria do Carmo, assim como haviam esquecido todos os fatos que dele decorreram. A vida de Maria das Dores seguia seu ritmo e as novidades trazidas pelos passantes já não lhe despertavam qualquer sentimento. Ora falavam da intensa seca; ora reclamavam que o rio, antes abundante em peixes, estava secando e, ora, ainda, passavam só para comprar um par de sandálias de couro.

É bem verdade que Maria, mesmo sem poder ver, sentia que os dias estavam mais quentes, que sua terra estava mais seca e que seus carneiros já não podiam lhe dar a mesma quantidade de couro de antes. Sentia, também, a escassez do peixe, o gosto diferente da macaxeira, mas, alheia a tudo, sentia que seu tempo também não era tão longo. Suas mãos, outrora ágeis e aguçadas, tal qual a vista da patativa, já não podiam tecer com a mesma velocidade.

Numa noite de calor intenso, sem conseguir dormir, Maria levantou-se, abriu a janela de seu quarto e ali se debruçou como se a vista da noite pudesse apreciar. Permaneceu ali, sentindo a pouca brisa que lhe soprava o rosto até que ouviu o som de algo caindo ao chão. Virou-se e, instintivamente, curvou-se próxima a mesa de sua cabeceira. Não precisou sentir o assoalho de madeira muitas vezes e em suas mãos já estava o cordãozinho de Do Carmo. Como não era mulher de se deixar impressionar, apertou o objeto em suas mãos, fechou a janela e voltou a se deitar.

Nesta noite teve um sonho. Estava sentada só, à beira do São Francisco. Era só uma menina de nove, dez anos de idade. Vestido branco de missa. Sentia a água lhe tocar os pés e podia enxergar. Sim, em seu sonho Maria podia ver como todos vêem. Contemplava a água límpida e os peixes que pareciam vir brincar com seus pés sob a água. A frescura do dia a animava e ela se pôs a andar pelas margens. Como criança curiosa e estupefata pelo que a visão lhe podia dar, afastou-se tanto que chegou a uma plantação de cajueiros. Percebeu não estar sozinha quando uma outra criança se aproximou e a convidou para deliciar-se com os belos frutos que estavam ali, bem ao alcance de suas mãos. Era Maria do Carmo. Igualmente vestidinha de branco, falante como a conhecera e feliz por estar ao seu lado naquele paraíso, desfrutando de um momento que jamais fora possível.

O sonho durou tanto tempo que Maria, acostumada a acordar ao primeiro berro de qualquer de seus carneiros, levantou-se com o sol já a atravessar as frestas da janela.. Quem pudesse ver seu rosto nessa hora saberia que estava feliz. Era como se de uma grande e bonita viajem tivesse acabado de aportar.

Neste dia não cumpriu suas rotinas matinais. Limitou-se a fazer seu café forte, tomar nas mãos a velha caneca de ágata e a sentar-se sobre o juazeiro. Ali permaneceu até a chegada de Pedro, que vinha lhe trazendo um punhado de bonitos cajus maduros.
- Dia, Dona Maria!
- Dia, Pedro. Tava aqui justinho esperando por ti.

Na cabeça de Maria, desde a hora que acordara, o único intuito era ir até a casa de Maria do Carmo. Não sabia o porque de tão obstinado desejo, mas, sabia que lá queria ir.

Calçou suas sandálias e, seguindo a voz de Pedro e as antigas lembranças do trajeto, se pôs a caminho.

A casa permanecia como se sua dona ainda a habitasse e tivesse somente saído para buscar seu peixe ou visitar a amiga.

Maria se aproximou da porta e pediu a Pedro que tentasse destrancar a fechadura já corroída pela ferrugem. Para surpresa, a porta não estava trancada. Entraram e Maria, tateando as paredes de estuque, chegou até ao quarto de Das Dores. Ali, sentou-se na cama e pediu a Pedro que a deixasse só por uns instantes. Balançava as pernas soltas no ar e pensava em seu sonho. Em uma das mãos, apertava o cordão com a chave. Nesse momento, sentiu seus pés baterem em algo sob a cama.

- PedroI Pedro!
- To aqui dona Maria, que se assucedeu?
- Pedro, tem uma coisa por debaixo da cama. Tu pode ver o que é?
- Oxe! Mas é uma caixa bonita que só vendo dona Maria. Passe só a mão pra ver.

A caixa dita por Pedro era, na verdade, um pequeno baú esculpido em baraúna e adornado com pinturas vivas de anjos, arcanjos, querubins e outros seres celestes.

À pedido de Maria, o rapaz levou o baú até sua casa. Lá chegando, Maria agradeceu e despediu-se dizendo se sentir cansada da caminhada.

Assim que Pedro saiu, Maria fechou as portas da casa, colocou o baú sobre a mesa da cozinha, e, com a mais absoluta certeza de sua existência, o abriu com a chave de ouro que carregava junto ao cordão.

Aberto o baú, uma grande luz tomou conta da pequena casa. Era como se mil lâmpadas tivessem se acendido ao mesmo tempo. Tão forte foi o clarão que foi visto a léguas dali.

Pela primeira vez em sua vida, Maria pôde enxergar. Não mais enxergar com a visão do tato, mas enxergar com os olhos. Deslumbrou-se ao ver os móveis de sua casa, seu bule de café, a madeira da mesa. Foi até sua pequena oficina e lá contemplou o couro, as sandálias, as ferramentas com que suas mãos trabalharam por anos. Saiu porta afora e viu seus carneiros magros, viu o entardecer e viu seu Padim recostado no pé de Juá.

- Meu Santo! Prá que tudo isso?
O Santo fitava, sorridente, o rosto em lágrimas de Maria das Dores e, sem palavra alguma dizer, lhe estendeu as mãos.

Naquele momento, Maria teve o conhecimento do bem e do mal dos homens. Soube sobre a ciência e a matemática. Aprendeu sobre guerras e vitórias, sobre a fé e seus malefícios.

Maria viveu até os seus cento e doze anos. Tornou-se santa naquela terra distante e esquecida. Por seus olhos, os aleijados se levantaram; os cegos puderam ver, os mudos falaram, aqueles de pouca fé tornaram-se crentes.

Nunca se soube de Maria do Carmo. A própria Das Dores, em seu leito de morte, pediu que lhe colocassem um espelho diante dos olhos, numa última tentativa de ver o acontecido de anos atrás. A única coisa que pôde ver foi a mesma luz que a fizera conhecedora dos mistérios da vida, a mesma luz que a consumiu diante da multidão que chorava por sua partida.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

O OLHAR E O OLHAR DE MARIA DAS DORES (capítulo segundo)

O anoitecer aumentou a angústia e o canto dos grilos pareciam lamentos que a sensibilidade da alma de Maria podia entender como gritos de socorro.

Sem muito pensar, levantou-se e saiu porta afora, lampião na mão, como se destino traçado tivera. Parecia esquecer-se que, dentre os dons que Deus lhe dera, não estava a visão física. Mas partiu noite adentro como se a vista da alma lhe pudesse guiar.

No início foram tropeços pelo caminho tão perto, tão desconhecido para si. Mas, a esta altura, nada a poderia deter. Despira-se de seus medos e obstinada continuava sua caminhada cega e lúcida.

Depois de algum tempo, ouviu vozes ao longe. À medida que caminhava, as vozes pareciam tornar-se mais distantes e, então, pensou estar caminhando na direção errada. Parou e instintivamente começou a cantarolar:

“...E quem é ele? E quem é ele? É o padre Cícero Romão, do Juazeiro do Norte, meu padim, sua bênção!"

Como que por milagre de Cícero, sua canção foi respondida por uma voz ao longe:

- Quem vem lá?

Seu coração disparou num misto de felicidade e temor, tal qual um marinheiro absorto pelo tanto navegar ao avistar a terra firme e desconhecida.

- Maria das Dores, filha de Celestino. Quem se achega?
- É Pedro, filho de Antonio peixeiro. A senhora pode continuar sua cantoria que eu me achego pela luz da lamparina.

E Pedro veio ao seu encontro, guiado pela voz cega de Maria, pela luz muda da lamparina e pelo cheiro enfumaçado do querosene.

- Oxe, Dona Maria! Que é que a senhora tá fazendo andando sozinha no meio da noite?
- Olhe menino, eu to aqui andando aperreada atrás de Do Carmo. Tu viste ela por essas bandas?
- Olhe só. Dona Do Carmo foi lá no meu pai depois da hora do almoço pra comprar uns surubim. Inté disse que ia levar uns lá pra senhora. Mas, oxe, tem muito tempo isso, dona.
- Tu viste ela ir embora?
- Mas vi sim senhora. Inté mandei umas pinha bonita que tinha tirado cedo.

Nesse momento, Maria das Dores fechou os olhos sem luz e soltou um grito que pareceu estremecer a terra.

Pedro aproximou-se mais, a segurou pelo braço e perguntou o que se passava. Das Dores permaneceu imóvel, olhos cerrados e inerte como se tivera sido transportada para outro mundo. Foram quase cinco minutos de silêncio absoluto, até que abriu os olhos e disse:

- Menino Pedro, Do Carmo foi apunhalada sete vezes, depois foi arrastada até a margem do rio e conforme o rio subiu, ela foi levada pelas águas.

O rosto de Pedro transfigurou-se.

- Oxe, Dona Maria. Quem ia fazer uma desgraceira dessa com Dona do Carmo?
- Isso meu "padin" não mostrou não. Mas, é certeza que a desgraça aconteceu.

...continua

quinta-feira, 19 de março de 2009

O OLHAR E O OLHAR DE MARIA DAS DORES (capítulo primeiro)

Alheia às desventuras climáticas que tornavam cada vez mais quentes os seus dias e cada vez mais árida a sua terra; como o fazia todas as manhãs, Maria acordou, fez o café, apanhou sobre a mesa a tapioca assada por ela na noite anterior e foi sentar-se à sombra tímida do pé de juá.

No banquinho de madeira, repetia seu ritual matutino, aproveitando a pouca brisa que o ar lhe trazia e pensava. Pensava no couro de carneiro curtido e que em poucas horas, por suas mãos calejadas, viraria sandálias.

Maria das Dores era seu nome. Filha de Celestino e Maria da Ajuda. Irmã de Francisco, Joaquim, Antônio, João, Lázaro, Pedro, José, Celestina, Maria de Nazaré, Maria Francisca e Maria Cândida. Mulher de estatura pequena, braços fortes e olhar de quem já vira de tudo na vida.

As terras eram herança de seu pai; o juazeiro, lembrança de sua mãe e a arte de calçar o povo era dom de Deus, assim como o dom de cantar enquanto tecia o couro duro até que o toque reconhecesse a perfeição de seu trabalho.

Nesse dia, permitiu-se ficar um pouco mais à sombra e adiou o início de seus afazeres diários. Os pés descalços deslizavam sobre a terra seca como se desenhos quisessem fazer. Podia ouvir ao longe o som dos poucos passantes na estrada e naquele momento se deu conta de que ela mesma jamais percorrera qualquer estrada. Dedicara a vida a cuidar dos pais, dos irmãos menores e de quem mais por ali aparecesse.

Refeita de seu momento nostálgico, caminhou até os fundos da casa e se pôs a cortar, costurar, cantar e tocar carinhosamente cada sandália pronta. Assim foi até que o sol estivesse à pino e lhe mostrasse que era hora de parar para o almoço.

Ritualmente, retirou da lata de banha um pedaço da carne do carneiro que ela mesma preparara dias atrás e o aqueceu enquanto a água cozinhava a macaxeira que complementaria sua refeição.

- Das Dores!
- Se achegue, Do Carmo!

Maria do Carmo. Maria das Dores. Marias de uma terra pobre, unidas pelas agruras, carmas e dores da vida. Mas, também, unidas pela amizade que a infância seca fez questão de preservar à idade adulta.

- Chegou na horinha. Se assente que já lhe faço um prato.
- Carece não, Das Dores. Tô indo na casa de Seu Antônio e vim perguntar se tu quer surubim.
- Oxe que faz tempo que não faço um surubim, Das Dores. Só tu mesmo pra me fazer isso.
- Oxe, que bobagem, loguinho tô voltando.

O dia passou lento até que o vento do entardecer trouxe com ele a preocupação de Maria com a amiga. Maria do Carmo era mulher de palavra e o fato de não haver voltado com os prometidos surubins a deixava pensando. Mas, pensando em que? No que pensaria alguém que nascera e crescera numa terra esquecida pela chuva e pelos homens? No que pensaria alguém que uma única vez mergulhou as mãos nas águas do São Francisco?

... continua

sábado, 2 de agosto de 2008

A PENA DE PARKER

E era chegada a hora de manifestar-se.
E era chegada a hora de tomar sua pena
e escrever sobre a vida e a morte no papel
já amarelado sobre a escrivaninha.
Mãos trêmulas segurando a caneta de marca
que, por instantes, lhe fazia lembrar o mal que o abatia.
Lembranças.
Tão breves, tão dissociadas que o faziam confundir-se entre
a pena e a letra, entre a felicidade e a sorte, entre passado e presente,
confusos em seu cérebro outrora bombardeado de idéias.
A chícara de chá à sua frente, outrora era uma dose do seu bom
e velho whisky escocês.
O cinzeiro, companheiro inseparável de suas viagens à terra
das letras, agora lhe servia como porta-comprimidos.
Lembranças do passado restavam-lhe poucas.
O seu presente parecia ser armazenado em um HD defeituoso que
à cada hora, sem qualquer comando, era formatado.
Ao lado da escrivaninha, o espelho insistia em lhe mostrar a
face ainda jovem de um senhor sem memórias.
Fitava o papel e de sua pena começavam a brotar rabiscos
que pareciam poemas. Mas, a cada estrofe, lhe fugia a rima,
lhe fugia a métrica, lhe fugiam as palavras como se tentassem saltar
do papel e precipitar-se de um arranha-céus qualquer.
Sem comoção, levantou-se, virou-se e apanhou em sua estante
um de seus livros favoritos. Não lhe era favorito por lhe haver dado
fama e dinheiro, lhe era o favorito por ter sido o primeiro nascido de sua pena.
Sentou-se e começou a folheá-lo por horas. Não lia os contos, não lia os poemas,
apenas lia seus títulos.
O chá sobre a escrivaninha jazia frio, assim como seu rosto até deparar-se
com o poema intitulado "sensos".
Resolveu lê-lo em voz alta.
Quem sabe, assim, não correria o risco de lhe ver afugentadas as letras.
Voz calma, meio embargada...
"Não tenho bom senso,
não tenho mal senso,
não tenho estratégias,
não tenho inveja.
Prefiro os que mentem aos que não dizem verdades.
Prefiro os que choram aos que não sabem sorrir.
Prefiro os que não dormem aos que não sabem sonhar.
Prefiro o silêncio às frases mal ditas.
Prefiro a agonia à calma fugídia.
Não tenho pesos.
Não tenho medidas.
Não tenho medo.
Não tenho feridas.
Prefiro as palavras sem rima aos poemas medidos.
Prefiro os que gritam aos que não sabem escrever nos olhos.
Prefiro os que calam aos que não sabem gritar.
Prefiro os que mostram aos que não sabem esconder.
Não tenho regras.
Não tenho réguas.
Não tenho tamanhos.
Não tenho sensos,
bons ou maus sensos.
Não tenho censura.
Não tenho lisura.
Sou poeta pela natureza de ser canhoto,
pela avareza das palavras faladas,
pelo senso,
pelo sentido sexto."
Terminando a leitura, sentiu-se um vencedor.
Olhou para sua velha estante e percebeu,
talvez pela primeira vez em sua vida que era, sim, poeta.
Eram dignos todos os troféus em suas prateleiras,
assim como dignas, eram todos as homenagens em sua parede.
Sentou-se, retomou sua pena e escreveu.
Escreveu como nunca antes havia escrito.
Com palavras que nunca ousara deitar no papel.
Ao final, dia amanhecendo, foi até seu quarto, deitou-se e dormiu.
Dormiu na esperança de que seu derradeiro escrito
o fizesse ser lembrado pelo que nem ele podia
mais lembrar-se, o ofício de escrever.


Este breve conto é dedicado ao meu amigo, incentivador,
jornalista, editor, crítico de música e grande escritor
Fernando Rozano (http://fernandorozano.blogspot.com/).


No player, "Alfonsina y el Mar", na voz de Mercedes Sosa.

terça-feira, 1 de julho de 2008

BREVE CONTO DO MAR

Vistosa a moça, em seu vestido branco, a caminhar pelas areias da Praia de Camburi.
Entre um passo lento e outro calmo esbarrava nas poucas conchas que o progresso por ali deixara.
Caminhava sem pressa e pensava em sua vida, que em comum com o azul daquele dia raro do inverno, só tinha a inconstância do azul do céu.
Caminhava olhando o horizonte que mostrava um sol tímido, por vezes escondido entre uma nuvem e outra.
Observava as varas de pescar fincadas na areia e seus pescadores de ocasião que, como ela, olhavam atentos pra lugar algum.
Observava os casais que se abrigavam do vento, abraçados nas pequenas encostas que o mar acabara de entalhar na areia.
Cabelos longos, pretos como os da canção que tocava em seu pequeno aparelho e que ela, desatenta, se deixava ouvir.
"Black is the colour of my trues loves hair..."
Sim, era amante de boa música.
Gostava de Nina Simone, Billie Holiday, gostava de Elis.
Era amante dos livros e comum era entre seus pensamentos naquele dia, passagens que tinha lido, passagens que estava lendo, passagens que, talvez, um dia viesse a ler.
De seus passos lentos, resultou uma grande caminhada.
Quando deu por si, já estava próxima à estátua de Iemanjá.
Parou por instantes a contemplar a moça de vestido azul e braços estendidos, esculpida sem muita maestria e ali fincada há anos, impávida, com seus cabelos que não balançavam ao vento.
Continuou seu trajeto, agora percorrendo o caminho até o ponto de onde havia partido.
Seu aparelho agora tocava "Lady Sings the Blues" e ela, displicentemente, começou a cantarolar.
Sentou-se à beira mar e sentiu a água gelada molhar seus pés.
Neste momento, divagou, perdeu-se entre seus pensamentos e adentrou a água fria.
Seu vestido, colado ao corpo, mostrava a silhueta bela e esguia daquela mulher que caminhava para esquecer que, a pouquíssimos dias, havia perdido um grande amor.
Não. Não o havia perdido para uma mulher mais bela.
O havia perdido pelo simples e comum hábito de perder-se de si mesma e de todos os que a pudessem rodear.
Mergulhou.
Abriu os olhos e pode ver, no turvo da água, pequenos peixes que a acompanhavam.
Tocou os peixes e eles, como que extasiados por sua presença, aglomeraram-se à sua volta. Aglomeraram-se de tal forma que ela não percebeu que já não eram só os de tamanho pequeno que a circundavam. Era um cardume de peixes das mais variadas cores e tamanhos.
Deixou-se levar e se erguia da água com frequência cada vez menor para respirar.
Seu aparelho não tocava mais música alguma, só lhe restara o som dos pensamentos.
O céu já enegrecera e, tal qual a Iemanjá, ergueu-se das águas, voltou a areia e esperou o dia de seu próximo caminhar em direção a si.

* Este breve conto foi escrito ao som de "Canção do Mar", interpretada por Dulce Pontes. Para ouvir é só seguir o link.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Hello, stranger!

Pudesse escrever sobre Nietzsche e sua loucura.
Pudesse escrever sobre Goya e seu "Saturno devorando um filho'.
Pudesse escrever em versos sobre a pessoa de Pessoa, sua pátria e sua língua.
Quem sabe, pudesse citar Clarice e te pedir que me desse sua mão para que eu lhe mostrasse como se faz para adentrar meu mundo.
Quem sabe, ousasse falar de Garcia e quisesse lhe contar o que tenho feito nos meus "Cem anos de solidão".
Mas, hoje, estou mais sarcástico, dramático, cinematográfico, diria.
Prefiro lembrar Jude Law, em "Closer", e dizer que sou o seu estranho.
Prefiro pensar em "A.I." e te pedir que me torne real.
Prefiro correr como Forrest e atravessar fronteiras pra te encontrar.
Quem sabe, da loucura me venha a lucidez.
Quem sabe, da poesia me venha a inspiração.
Quem sabe, de hollywood me venha o sonho.
Quem sabe, numa esquina, num vago segundo, me venha você.

domingo, 8 de junho de 2008

Vôos

Você me disse que tinha asas
e eu te deixei voar.
Você me disse que tinha casa
e eu te deixei mudar.
Você me disse que tinha um navio
e eu te deixei navegar.
Você me disse querer ver o outro mundo
e eu te deixei viajar.
Você me disse que nunca voltaria
e eu te deixei voltar.
Você me disse que não mais partiria
e eu fui tolo em acreditar.
Agora você volta de asas quebradas,
sem lar, sem navio e sem passagem.
E eu?
O que faço agora que aprendi a voar sozinho?
Agora que pintei a casa de vermelho e branco,
agora que colei seus postais marítimos no painel do escritório,
agora que fui à Europa,
agora que deixei de acreditar,
agora que voltei pra mim,
agora que sou ateu.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Lost

Ando apressado por ruas que não conheço.
Recebo presentes celestes que eu bem sei não mereço.
Subo montes desesperado.
Bato em portas felizes e abraço gente que conhece
os meus olhos inevitáveis.
Telefono apressado para números que minha caneta esqueceu
de anotar.
Eu esqueço de amar.
Abro portas que não me convidam,
fecho contratos com a solidão.
Ando apressado por caminhos antigos,
encontro a pessoa da multidão,
digo sim e digo não.
Esqueço, vou embora, é tarde.
Entardece o dia em que o encontro me fez encontrar o escondido.
Chega a noite e eu saio pela janela,
eu saio de mim, eu saio de tudo e me perco.
Me perco sozinho, cansado do espetáculo de viver.
Me perco à cada minuto.
Ando perdido por caminhos novos,
atraído por novos neóns,
distante das velhas vitrines,
perto do mundo.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Sem prescrição

Ainda me salga o gosto de sua lágrima no lábio superior.
Ainda queima no ar do apartamento o cheiro de seu último cigarro.
Ainda cintila na noite o brilho de seu último olhar antes do apagar da porta.
Ainda range no vento o escuro do último fechar de luzes.
Ainda me falta no peito o ar de seu último beijo.
Ainda me bombeia a veia o sangue da última emoção de seu toque.
Ainda me dói a ferida aberta.
Ainda me falta a palavra certa.
Ainda não durmo sem seu sono alerta.
Mas, vivo.
Vivo salgado chorando no escuro.
Vivo queimando cigarros na madrugada.
Vivo brilhando em palcos sem convite.
Vivo rangendo dentes.
Vivo com apnéias breves.
Vivo tocando.
Vivo falando.
Só dormir é que não consigo.
Não me afetam as anfetaminas depois que
me levaste, sem prescrição de outra,
a última receita azul.

domingo, 25 de maio de 2008

Poema de Van Gogh

Vagando outro dia, na lua de uma noite fria,
eu conheci um estranho, um homem, um filho da
rua, um homem feito nós.
Caminhando por entre faróis, parei pra pensar em flores,
parei pra gritar as dores de amores mortos atrás.
Viajando por parques escuros, parei pra pixar em
muros canções de alguém cantar.
Vagando um outro dia, no frio de uma lua cheia,
toquei o corpo de um estrangeiro, de um homem
sem cheiro, feito água de um ribeiro.
Falando ao seu ouvido, julguei não estar atento e
caminhei em direção a sóis, falando só.
Percorrendo países, cidades e mundos, cheguei ao campo de girassóis.
Extasiado diante dos nós sabendo não estar só,
andando por entre amarelo, toquei em tinta de outra cor.
Vivendo na profusão do criador, pude enxergar a mão do pintor.
Descobri-me então como parte da criação.
Descobri-me livre pra colorir uma emoção.
Saltei ileso como um nascituro feliz
pra viver o sonho de ser tinta, de procurar ser aprendiz.

domingo, 18 de maio de 2008

Não julgarás

Julgou ter comprado flores, mas, em setembro,
percebeu ser mato o que havia no vaso da soleira.
Julgou ter matado a sede, mas, em fevereiro,
percebeu ser tóxica a bebida que o viciara.
Julgou saber muito sobre tudo, mas, nos
meses seguintes, percebeu ser tão tolo quanto os demais.
Julgou ter matado os peixes em seu aquário, mas, com
a vinda dos novos, percebeu que os antigos
é que haviam matado à sí próprios.
Julgou ter tempo para todos, mas, com as mensagens
acumuladas em sua caixa postal, percebeu ser um só.
Julgou fazer demasiado bem, mas, em dezembro, percebeu
ser nada o que julgara ter feito.
Julgou ter amado demais, mas, lhe chegando o grande amor,
percebeu não saber amar.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Virtualidades

rapaz_solteiro entra na sala...
sozinho fala para rapaz_solteiro: olá, boa noite
rapaz_solteiro fala para sozinho: blz, de onde?
sozinho fala para rapaz_solteiro: centro
rapaz_solteiro fala para sozinho: legal, eu tb
sozinho fala para rapaz_solteiro: o que vc procura?
rapaz_solteiro fala para sozinho: procuro nada, não. perdi nada
sozinho fala para rapaz_solteiro: boa essa, nunca tinha ouvido
rapaz_solteiro fala para sozinho: brincadeira, to procurando um cara bacana, sensível, etc
sozinho fala para rapaz_solteiro: achou então
rapaz_solteiro fala para sozinho: rs
sozinho fala para rapaz_solteiro: qual a graça?
rapaz_solteiro fala para sozinho: resposta incomum
sozinho fala para rapaz_solteiro: fone?
rapaz_solteiro fala para sozinho: cedo prá isso, não?
sozinho fala para rapaz_solteiro: talvez, mas se queremos a mesma coisa....
rapaz_solteiro fala para sozinho: tá bem, anota aí ....
sozinho sai da sala
rapaz_solteiro sai da sala

...

- Alô!
- Olá, achei que não ligaria.
- Pois é, também achei que não deveria, mas, enfim, estou ligando...
- Que bom. Difícil encontrar pessoas legais numa sala de bate-papo.
- É verdade!
...
Conheceram-se, namoraram-se e um belo dia resolveram morar juntos.
Amaram-se, compraram um carro, viajaram, fizeram amigos comuns,
separaram-se e, um dia, na mesma virtualidade, voltaram a se conectar.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Sobre todas as coisas

Escrevo sobre papéis de rascunho
amontoados na velha escrivaninha.
Escrevo papéis que finjo saber interpretar.
Escrevo sobre a vida, sobre a morte,
sobre as coisas e sobre a sorte.
Escrevo com esferográficas canetas
que falham.
Escrevo sobre a pena, sobre a letra,
sobre o amor e suas fraquezas.
Escrevo com tinta azul, pois, daltônico,
verde me parece.
Escrevo sobre seu rosto, sobre a minha alma,
sobre a felicidade e suas torpezas.
Escrevo com velocidade, pois, lento,
me fogem pensamentos.
Escrevo sobre vias, ruas e passagens,
sobre pessoas e suas sutilezas.
Escrevo com a mão esquerda, pois, destro,
canhoto lhe seria.
Escrevo sobre os ricos, sobre os pobres,
sobre suas dores e amarguras.
E, quando insano, escrevo sobre
seu corpo.